segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sobre Transposição e Crise

O Engodo da Transposição

Independente de posição política, nunca fui à favor da Transposição das Águas do Rio São Francisco. Eu acredito que isso vai representar um impacto maior do que o rio poderá suportar. E digo porque.

1) Existem na imprensa nacional, diversas reportagens mostrando que, ao longo do rio, muitas áreas banhadas pelo rio estão severamente afetadas pela seca. A navegação e a pesca estão comprometidas em muitos locais. Segundo muitas análises, esta é a maior seca já enfrentada pelo rio.

2) Os níveis dos reservatórios das principais usinas hidrelétricas que fornecem energia para o Nordeste, e que usam a água do rio, particularmente o maior deles, que é o de Sobradinho, estão com níveis perigosamente baixos. Segundo o monitoramento que o Operador Nacional do Sistema Elétrico faz nestes reservatórios, o nível médio da Região Nordeste é de cerca de 14,19%, e o do já citado Sobradinho, apenas 8,55%.

Diante destes dois pontos, surgem as perguntas:

1) Se o rio já está sendo afetado severamente no cenário atual, como ele ficaria com uma grande retirada de água representada pela transposição?

2) Existiram estudos sobre a viabilidade e impacto desta transposição? Ou os interesses políticos/econômicos foram os determinantes para que tal obra fosse feita?

3) Quando ficará pronta? A primeira previsão era 2010. Depois foi adiada para 2012 e 2015. Agora, a próxima possível data de conclusão é 2016/2017. Será mesmo? Especialmente num cenário totalmente adverso na economia, em que o governo está sendo obrigado a fazer imensos cortes em programas fundamentais?

4) Que providências estão sendo tomadas pelo poder público para evitar, por exemplo, a retirada ilegal de água do rio? Existem planos elaborados ou em execução visando a preservação das margens do São Francisco?

O que eu acho é que a transposição não vai resolver o problema da seca em áreas do Nordeste. Vai sim, se um dia ficar pronta, agravar os problemas já existentes no Velho Chico. O rio já está morrendo agora, devido à péssima gestão pública de suas águas, agravada pelo fator climático. E, enquanto isso, nenhuma medida é tomada, seja para fiscalizar as obras da transposição, seja para tomar conta do rio. A Transposição das Águas do Rio São Francisco está se revelando um engodo eleitoral, uma miragem no deserto, um delírio febril causado pela ganância e impunidade de nossos políticos e empresários inescrupulosos.

A gestão dos recursos hídricos é essencial para a manutenção de nossa sociedade. Dependemos da água até para gerar energia. As consequências do cenário atual podem ser dramáticas. E o que mais me preocupa é que NINGUÉM liga! 
Eu intensifiquei minhas preparações, porque certamente enfrentaremos muitas turbulências nos próximos meses. Se for para ser pessimista, apagões poderão se tornar frequentes e o racionamento de água mais intenso, aumentando ainda mais a já crescente tensão social...

Espero que um milagre ocorra, que venha muita chuva e que a situação se normalize. Mas é bom NÃO contar com isso...






terça-feira, 25 de agosto de 2015

Sobre China e El Niño

Algumas notícias que surgiram nos últimos dias e que devem nos deixar em alerta, pela conjunção nefasta de fatores que isso representa.

A bolsa de valores chinesa teve perdas de quase 30% nos últimos dias. Mas este não é o ponto mais perigoso do fator China. Tanto é que, apesar do tombo de ontem, hoje as bolsas europeias recuperaram grande parte das perdas. O problema chinês é que não há como saber, graças a falta de transparência da economia que é controlada com mãos de ferro pelo governo, a real extensão da degradação econômica. Talvez a China seja a maior bolha financeira deste século, fazendo com que a bolha das empresas de internet no começo do século pareca brincadeira de criança. Não há garantias reais de que os dados econômicos chineses não tenham sido maquiados ao longo do tempo.
Enquanto isso, cientistas alertam que o fenômeno El Niño, que é caracterizado por um aquecimento anormal das águas do Pacífico, que por sua vez altera o regime de circulação atmosférica global, causando, por exemplo, secas mais intensas e prolongadas em locais como o Nordeste do Brasil e chuvas mais intensas no Sul, será o mais intenso desde que começou a se registrar este tipo de dado, nos anos 1950. 1997, o ano com o El Niño mais intenso já registrado, foi o ano mais quente que se tem notícia. As projeções dos cientistas indicam que o El Niño deste ano poderá aumentar a temperatura da água do Pacífico em até 5ºC, algo jamais visto. Além da já referida seca no Nordeste, este também causará um aumento da temperatura na região Sudeste.
Caso se confirmem estas duas previsões, teremos um cenário realmente desesperador para os próximos meses.
De um lado, uma eventual crise chinesa afetará o principal comprador de produtos brasileiros, acentuando a já grave crise econômica que nos atinge. Isto levará ao governo a reduzir ainda mais os gastos em obras de infra-estrutura, nas quais se incluem os reservatórios de água para consumo humano e também para a geração de energia elétrica. Por outro lado, estas obras, principalmente no que diz respeito à água e energia jamais foram tão necessárias, por causa das perspectivas climáticas.
A situação se torna a cada dia mais grave. Mas a sociedade civil organizada e os governos parecem não perceber (ou fingem não perceber) que o Brasil pode estar entrando na crise mais séria de sua história.
O que a comunidade sobrevivencialista deve fazer é continuar a se preparar.

Pode soar pessimista, mas essa é a realidade que os anos de falta de medidas preventivas sérias por parte dos governos nos deixou de herança... Não vou nem tocar no assunto do porque o clima está mudando...

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Combinação Perigosa

A crise financeira está aí. E, ao contrário da de 2008, essa parece que não vai ser uma marolinha. Não precisamos de dados deste ou daquele órgão para perceber que a situação é séria. Muitos amigos perderam o emprego ou vêem quedas significativas de faturamento em seus negócios. Andando pelas ruas, vemos muitas lojas fechadas, muitas galerias recém-construídas esperando por inquilinos para as suas lojas, e, nas que permanecem abertas, ou os vendedores passam quase o dia todo de braços cruzados, ou boa parte deles já foi mandada embora. Vemos os juros básicos da economia subindo. Vemos os juros estratosféricos do cheque especial e do cartão de crédito. Vemos um governo fazendo cortes orçamentários em todas as áreas, até naquelas em que, mesmo com todo o dinheiro disponível, já não eram eficientes, como a segurança pública, a saúde e a educação.
Soma-se a isso, a crise hídrica absolutamente sem precedentes. Quando observamos a variação da quantidade de água nos reservatórios de 3 das principais regiões metropolitanas do país, é possível perceber que as recargas nas estações chuvosas não foram, nem de longe, suficientes para restabelecer a capacidade de armazenamento destes. Em várias outras cidades espalhadas pelo país, a situação também é preocupante. Há locais em que a água dos reservatórios durará apenas até o fim do ano. Há locais em que já não há água, e que o abastecimento é feito por carros-pipa. Mas, imagine uma cidade de médio/grande porte sendo abastecida dessa maneira. Totalmente inviável.
Boa parte da população está sendo submetida a dois tipos de pressão: A financeira e a hídrica. Com exceção da região do semi-árido brasileiro (que inclui áreas de todos os estados nordestinos e norte de Minas Gerais), nunca na história a população de médias e grandes cidades brasileiras, especialmente do Sudeste, tinha sofrido esta pressão simultânea.
Estamos chegando à um momento crucial, que deve ser atingido nos últimos meses de 2015 e nos primeiros de 2016. Como a população reagirá à uma situação na qual, além da crise financeira, há também uma crise no abastecimento de água?
Temos que nos preparar para a possibilidade de uma real degradação na organização da sociedade brasileira nos próximos meses. Pode parecer um certo exagero. Mas, as medidas tomadas pelos governantes para gerenciar as duas crises tem sido ineficazes.
É importante manter o tema da água sempre na pauta. Porque crises financeiras, por mais duradouras que sejam, um dia elas acabam. Mas, pessoas e cidades não conseguem sobreviver se não houver água. E, pela mudança do comportamento das chuvas e aumento de consumo de água vistos nos últimos anos, a escassez parece que veio para ficar.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Pandemia: Uma ameaça sempre presente

No fim do mês passado, dois eventos preocupantes vieram a tona. Nos EUA, uma espécie de gripe aviária fez com que aproximadamente 10% dos frangos do país tivessem que ser sacrificados. Tal acontecimento deixou vários setores produtivos em alerta. Dos fabricantes de alimentos aos laboratórios farmacêuticos. Além do frango, estes setores usam também os ovos para o feitio de seus produtos. E temem que suas criações de aves possam vir a ser afetadas. Tal fato já está tendo um impacto direto sobre o preço dos produtos aviários no país. Os ovos nas granjas chegaram a ter o seu preço triplicado.
No distante Cazaquistão, uma diarreia severa matou em poucos dias cerca de metade da população de um antílope chamado saiga. Não se sabe ainda o que causou esta mortandade, mas a possibilidade de que alguma espécie de vírus seja a responsável não está descartada.
Há anos se especula a possibilidade de transmissão de agentes patogênicos de outras espécies para o ser humano. Não parece ser o caso no atual surto de gripe aviária nos EUA, que é, por sinal, o maior da história. Mas, mesmo que não seja, só o fato de uma doença se alastrar de forma bombástica entre alguma espécie que nos serve de alimento é assustador. Assim como é assustador uma doença desconhecida dizimar rapidamente uma espécie selvagem.
No ano passado, o surto do vírus Ebola, em vários países africanos foi, de longe, o maior da história. O problema só não atingiu uma escala global porque o vírus ainda não está perfeitamente adaptado ao ser humano e, na maioria das vezes, ele mata o hospedeiro antes que este tenha tempo de contaminar outras pessoas. Mas, em algum momento no futuro, cepas de vírus mais adaptados ao ser humano, como o da gripe, podem se tornar terrivelmente mortais, por causa das inúmeras e imprevisíveis mutações aos quais estes se submetem.
A verdade é que, cada vez mais, ficamos mais vulneráveis à esse tipo de perigo. A população aumenta mais a cada ano. Aqui no Brasil, na maior parte das cidades, não há um sistema de saúde que funcione nem com a demanda que se tem em tempos normais. Imagine em caso de emergência médica. É cada vez mais fácil o transporte de pessoas e produtos pelo planeta. E, embora não se toque no assunto, certamente existem países e organizações que fazem pesquisas com microrganismos, seja para criar vacinas, seja para usá-los como armas.
Como sobrevivencialistas, devemos ficar sempre atentos a qualquer evento envolvendo grande mortandade de animais. Isso pode ser um sinal de problemas à vista.

Adendo: Dois dias após o autor deste blog fazer esta postagem, centenas de escolas e universidades na Coreia do Sul suspenderam suas atividades devido à um surto de MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), uma variante da SARS. Veja aqui a notícia.


Links:

Surto de gripe aviária nos EUA
Morte de antílopes no Cazaquistão

domingo, 24 de maio de 2015

Sobre Estado Islâmico E A Volta Da Ameaça Nuclear

Foi divulgado recentemente na imprensa internacional que o Estado Islâmico teria a capacidade de adquirir armas nucleares através do Paquistão, país que possui um arsenal nuclear.
Este é um fato que deve ser analisado com bastante cautela.

O Estado Islâmico possui dinheiro suficiente para obter armamentos de quaisquer tipos. Porém, ao contrário do que os filmes de agente secreto mostram, não é tão fácil comprar e transportar uma arma nuclear por aí. Para começar, todas as armas produzidas no mundo são rigorosamente controladas. Mesmo no caos que se transformou a antiga URSS durante a sua desintegração, as armas nucleares permaneceram sob o controle das Forças Armadas Russas. Instalações nucleares são extremamente protegidas (ou pelo menos monitoradas), não só pelas forças armadas locais, mas também por vários outros países, em especial os EUA. Em caso de tentativa de invasão/roubo, esta certamente seria detectada em vários lugares ao mesmo tempo e ações seriam tomadas no sentido de impedir tal fato (provavelmente sem respeito algum em relação à soberania nacional, principalmente em países como Paquistão e Coréia do Norte). Além disso, armas nucleares não são o que se pode chamar de portátil. Pesam centenas de quilos, com o material radioativo e todos os mecanismos responsáveis por seu acionamento. E são fáceis de serem detectadas, pois emitem grande quantidade de radiação. A tecnologia para produzir materiais nucleares, como o urânio com alto grau de pureza, usado em bombas e reatores, é um processo dominado por poucos países (entre os quais, o Brasil), é muito caro, difícil e facilmente detectável.

Agora, existe um outro tipo de dispositivo explosivo que utiliza radiação como arma, mas não é nuclear. Trata-se da bomba suja. Consiste explosivo comum envolvido por uma certa quantidade de material radioativo, como por exemplo o césio-137 (responsável por várias mortes em Goiânia, num acidente nos anos 80). Tal dispositivo poderia contaminar por décadas bairros inteiros de uma cidade. Ao contrário de uma arma nuclear, este não exige muita tecnologia para ser fabricado.

Imagine uma dessas bombas sujas sendo detonada no centro financeiro de uma cidade como Nova Iorque. Seria uma forma eficiente e barata de trazer o caos econômico aos EUA (e a boa parte do mundo também).

Não quero dizer aqui que é totalmente impossível para o Estado Islâmico conseguir uma (ou várias) armas nucleares. Os sistemas de vigilância nuclear são realmente muito bons. Mas não são infalíveis e nem incorruptíveis. Países com capacidade nuclear e que são antagonistas das potências ocidentais, como a própria Coréia do Norte, usam muito de retórica quando ameaçam usar sua força nuclear. Mas na prática não vão fazer nada, pois um ataque dessa natureza seria assinar a sua própria sentença de morte, o que não seria interessante para um regime que quer manter o poder em suas mãos. Países assim tem em suas armas nucleares a garantia de não serem diretamente atacados pelas grandes potências. Já grupos como o Estado Islâmico parecem não ter essa preocupação. Por ser um grupo sem identidade nacional (inclusive há pessoas que defendem seus ideais infiltradas em muitos países), a ideia de ter um território atacado em retaliação à um possível atentado nuclear não serviria de impedimento.

Seja como for, é bom ficar de olho nas ações do Estado Islâmico. Eles agem como se não tivessem nada a perder...

sábado, 16 de maio de 2015

Presenciando o Caos

São vários roubos e assassinatos por dia, até mesmo em escolas, em plena luz do dia. O transporte público para de funcionar, pois ônibus são destruídos por incendiários. Uma pessoa é desmembrada. Tem sua cabeça e braços arrancados, enquanto os que praticam a ação contam piadas e dão gargalhadas. A situação do abastecimento de água é crítica, pois o reservatório que abastece a região está em situação crítica e as mudanças climáticas fazem com que chova cada vez menos. Há falhas frequentes de comunicação, principalmente em relação aos telefones celulares.

Parece enredo de filme ou documentário apocalíptico. Mas não é. Isso é o que tem acontecido na cidade onde moro, Campina Grande, Paraíba.

A sensação de medo é enorme. E, para completar, existem os irresponsáveis que usam as redes sociais para espalhar boatos que aumentam ainda mais o medo da população. Mas a verdade é que vivemos em uma situação em que o poder público está cada vez mais ausente, as forças de segurança são cada vez mais ineficazes e cada vez menos temidas. Uma entrevista do comandante do batalhão de polícia da cidade mostrou que simplesmente não há efetivo nem recursos para oferecer um mínimo de proteção aos cidadãos. Um relato de um policial que não quis se identificar mostrou que, para se fazer uma abordagem à veículos suspeitos ou ônibus, geralmente são usados apenas dois agentes, o que claramente é insuficiente.

Decididamente estamos no que pode-se chamar de um estágio Pré-SHTF.

A menos que chova muito, mas muito mesmo (o que é improvável, ainda mais em um ano de El Niño), e que haja uma completa e total reestruturação na maneira como se combate o crime, a situação só tende a piorar. E olhe que ainda há a questão da crise econômica atual...


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sobre Informações e Percepção

Moro numa cidade que já está sofrendo com o racionamento de água desde o último Dezembro. Mas, a crise hídrica é muito mais séria do que se pensava. O manancial que abastece a cidade estava com cerca de 19,6% de sua capacidade. Porém, diversos analistas tem chamado a atenção para o grave erro destes cálculos, que não levaram em conta a entrada de sedimentos no reservatório nos últimos 50 anos. Os cálculos refeitos com esta variável indica que na verdade, o reservatório só tem 14,5% de água. Todo o programa de contingenciamento de consumo foi feito baseado em informações erradas. E agora, uma medida muito dura terá que ser tomada. O racionamento aumentará de 2 para 3 dias consecutivos. 
Deste episódio podemos aprender uma lição: Nunca devemos confiar totalmente nas informações divulgadas. Acredite sempre que pode estar muito pior do que o que a imprensa e os órgãos públicos nos fazem crer. Parece pessimismo? Eu acho que é realismo. 
Analise as informações, mas confie nos seus instintos, na sua percepção. Preste atenção nos acontecimentos anômalos a sua volta. E mantenha-se em constante preparação. 
Um exemplo interessante. Sabemos que o país atravessa o princípio de uma grave crise financeira. A imprensa atira isso nas nossas caras 24 horas por dia. Mas, sabemos o quanto a crise é realmente séria não pelo o que a imprensa diz, mas pelo que observamos nas ruas e nas nossas conversas com parentes, amigos e colegas. Aqui na cidade, é impressionante o número de lojas fechadas, com os imóveis comerciais com placas de Aluga-se. O número de pessoas no posto do Ministério do Trabalho, atrás de Seguro-Desemprego e FGTS aumentou muito. É sensível a queda de movimento no café e na livraria que costumo frequentar. Você passa em frente às lojas e vê os funcionários de braços cruzados na maioria delas. Vê que vários amigos seus perderam o emprego e estão com dificuldades de arrumar outro. Por tudo isso, nem seria necessária a divulgação de notícias por parte da imprensa. A sua percepção já seria suficiente para perceber que existe algo errado. 
Assim o é com vários outros parâmetros. Não é difícil perceber que faz um calor muito grande para Maio aqui na cidade, nem que choveu muito, muito pouco em 2015. 
Mesmo com tudo isso, devemos nos manter informados. Mas nunca confiar somente nas informações. Devemos usar nossa percepção. 

Acredite no melhor, mas prepare-se para o pior.